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domingo, 30 de março de 2014

Manifesto "Preparar a reestruturação da dívida para crescer sustentadamente": apoio e divulgação da petição pública

Introdução:

A minha consciência cristã, em particular católica, por via das Sagrada Escritura e da denominada Doutrina Social da Igreja (DSI), e de cidadão levam-me a intervir neste debate a que não podemos ser indiferentes. É um direito e, simultaneamente, um dever.
Não o faço como especialista de nada, muito menos como “doutor” em economia e finanças, mas enquanto cristão comprometido e cidadão empenhado, à minha pequena escala.
O meu apoio ao Manifesto Preparar a reestruturação da dívida para crescer sustentadamente (versão pdf) e à petição pública que o suporta não é feito contra ninguém em concreto, mas sim por um caminho alternativo e de fuga à ditadura de pensamento único que vivemos.
Precisamos de uma economia dinâmica e de contas públicas rigorosas, contudo tendo no centro a Dignidade da Pessoa Humana.
Podendo haver diferentes intenções por parte de quem assinou o Manifesto, mas, a mensagem, em si, é o mais importante. Existirão mais alternativas além da “oficial”. No entanto, considero que este Manifesto é muito mais respeitador do Ser Humano.
Tenhamos em conta que o documento salienta que paguemos a dívida e sejamos honrados nos nossos compromissos. Que não haja dúvidas quanto a isso. Todavia, o que se pretende é uma economia, um sistema financeiro e político ao serviço da Pessoa e não ao contrário. “O Sábado foi feito para o Homem e não o Homem para o Sábado” (Marcos 2,27).
Personalidades como Adriano Moreira (um dos maiores académicos e ilustres pensadores portugueses); Alfredo Bruto da Costa (actual presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz – CNJP-, organismo laical da Conferência Episcopal Portuguesa); Bagão Félix (antigo presidente da CNJP); Eugénio da Fonseca (Presidente da Cáritas Portuguesa); Manuela Silva (economista com fortes preocupações sociais) e Rui Marques (activista de causas sociais, fundador e presidente do extinto Movimento Esperança Portugal), católicos activos, empenhados, profundamente conhecedores e praticantes da DSI, dão um cunho de rigor ao Manifesto e de preocupação com o Bem Comum e não com o “deus mercado”.
Estas personalidades abrangem um espectro político, ideológico e de pensamento bastante alargado. No entanto, convergem no essencial: o serviço à Pessoa Humana, criada por Deus para viver em harmonia e fraternidade e não subjugada por interesses ocultos e “senhores sem rosto” (expressão dos Bispos de Portugal, numa mensagem de 10 de Novembro de 2011).

A actual situação portuguesa e europeia:

A actual situação de Portugal e dos países sob resgate financeiro ou com fortes medidas de austeridade traz-me à memória o discurso de Jesus sobre o “perdão na comunidade” (Mateus 18, 21-35), em que um servo devia dez mil talentos (quantia enorme) e, por compaixão, o seu Senhor perdoou-lhe, mas o servo já não teve a mesma atitude para com um dos seus companheiros, que lhe devia um quantia infinitamente menor: Segurando-o, apertou-lhe o pescoço e sufocava-o, dizendo: “Paga o que me deves!”
Não haverá perdoados que nos estão a esganar o pescoço?
Esta semana foi publicado pela Caritas Europa o documento “A crise europeia e o seu custo humano”, segundo relatório de acompanhamento da crise em Portugal, Itália, Grécia, Espanha, Irlanda, Roménia e Chipre. As conclusões são elucidativas e preocupantes:
  • Altos níveis de desemprego, com quatro destes países a terem índices superiores aos da média da UE;
  • Elevados níveis de desemprego jovem;
  • Desemprego de longa duração em todos os países, com taxas significativas e correndo o risco de se tornar em desemprego estrutural;
  • Aumento da pobreza na maioria destes países, com particular incidência na pobreza infantil;
  • Coesão social da Europa e a legitimidade política da União Europeia em risco;
  • A insustentabilidade dos contribuintes continuarem a ser os pagadores das dívidas dos bancos;
  • A injustiça de as pessoas que pagam o preço mais alto actualmente são aquelas que não tiveram parte nas decisões que levaram à crise, e os países mais afectados estão entre aqueles com as maiores lacunas nos seus sistemas de protecção social, de modo que são menos capazes de proteger os mais frágeis.
Destacamos algumas ideias da nota de imprensa da Cáritas Portugal sobre o relatório, as quais subscrevo integralmente:
·         … injustiça da actual situação em que são os contribuintes, a maioria deles já em condições de fragilidade económica, a pagar por uma crise que tem a sua raiz no sector financeiro.
·         O relatório, hoje apresentado, pretende dar mais um contributo para uma reflexão que não pode ser exclusivamente económica e financeira, mas de ordem política mais abrangente, tendo em conta a necessidade de um desenvolvimento assente numa maior equidade social.
·         Garantir que os cristãos católicos, por toda a UE, assumam o desafio de aplicar na sua vida e na esfera das suas influências os princípios da Doutrina Social da Igreja não excluindo outras opiniões, dialogando com outras confissões religiosas e partilhando os mesmos ideais com todas as pessoas de boa vontade.
·
Estão frescas, na minha lembrança, as imagens de uma fila com largas dezenas de pessoas a aguardarem a abertura de uma delegação da Segurança Social para requererem o subsídio de desemprego e outras largas dezenas, em mais do que uma vez, esperando por uma sopa quente que lhes pudesse enganar o estômago.
Esta dura realidade é muito reveladora da crise social, fruto da cegueira da austeridade a qualquer preço.

A Doutrina Social da Igreja:

Estaremos atentos à DSI e à sabedoria bíblica? Não serão suficientemente esclarecedoras quanto à centralidade da Pessoa Humana?
Só se estivermos desatentos é que não percebemos (ou fazemos não perceber) a mensagem clara do Papa Francisco, na sua primeira Exortação Apostólica, “A Alegria do Evangelho”: “Esta economia mata” porque predomina “a lei do mais forte”. São elucidativos, alguns pontos da sua Exortação:
§         Não a uma economia da exclusão [53-54]
§         Não à nova idolatria do dinheiro [55-56]
§         Confissão da fé e compromisso social [178-179]
§         O Reino que nos solicita [180-181]
§         A inclusão social dos pobres [186]
§         Unidos a Deus, ouvimos um clamor [187-192]
§         Economia e distribuição das entradas [202-208]
§         Cuidar da fragilidade [209-216]
§         O bem comum e a paz social [217-221]
§         O todo é superior à parte [234-237]

Na Intenção Universal para o mês de Abril, o Papa roga: Para que os governantes promovam o respeito pela criação e uma justa distribuição dos bens e dos recursos naturais.
O actual Papa não foi o único a pôr o dedo na ferida. O emérito Bento XVI, na Carta Encíclica “Caridade na Verdade”, assume igual condenação do sistema económico-financeiro vigente:
  •  . . . os efeitos deletérios sobre a economia real duma actividade financeira mal utilizada e maioritariamente especulativa (n.º 21 );
  •  . . . as políticas relativas ao orçamento com os seus cortes na despesa social, muitas vezes fomentados pelas próprias instituições financeiras internacionais, podem deixar os cidadãos impotentes diante de riscos antigos e novos; e tal impotência torna-se ainda maior devido à falta de protecção eficaz por parte das associações dos trabalhadores (n.º 25);
  • O grande desafio que temos diante de nós — resultante das problemáticas do desenvolvimento neste tempo de globalização, mas revestindo-se de maior exigência com a crise económico-financeira — é mostrar, a nível tanto de pensamento como de comportamentos, que não só não podem ser transcurados ou atenuados os princípios tradicionais da ética social, como a transparência, a honestidade e a responsabilidade, mas também que, nas relações comerciais, o princípio de gratuidade e a lógica do dom como expressão da fraternidade podem e devem encontrar lugar dentro da actividade económica normal. Isto é uma exigência do homem no tempo actual, mas também da própria razão económica. Trata-se de uma exigência simultaneamente da caridade e da verdade. (n.º 36);
  • Tanto uma regulamentação do sector capaz de assegurar os sujeitos mais débeis e impedir escandalosas especulações, como a experimentação de novas formas de financiamento destinadas a favorecer projectos de desenvolvimento, são experiências positivas que hão-de ser aprofundadas e encorajadas, invocando a responsabilidade própria do aforrador. (n.º 65).  

No âmbito da DSI, outros Pontífices elaboraram documentos com uma forte preocupação pela Dignidade da Pessoa Humana e condenando os excessos económicos e financeiros: desde Leão XII, com a “Rerum Novarum”, passando por Pio XI (“Quadragesimo Anno”), Pio XII (mensagem de rádio na Solenidade de Pentecostes), João XXIII (“Mater et magistra” e “Pacem in Terris”), Paulo VI (“Populorum progressio” e “Octogesima adveniens”) e, mais recentemente, João Paulo II (“Laborum exercens”, “Sollicitudo rei socialis” e “Centesimus annus”). Não esquecendo os documentos do Concílio Vaticano II, com destaque para a Constituição Pastoral “Gaudium et Spes”.
Será que somos “papistas” só em algumas questões?
“Esta é a hora da Igreja” (Povo de Deus e, sim, o Clero!) de intervir ainda mais assertivamente pelo respeito dos valores e direitos da Dignidade da Pessoa Humana e em tudo aquilo que contribua para a sua elevação, com maior acutilância pelos mais vulneráveis.
A Igreja Católica (não, não estou enganado!), contribuiu decisivamente para o derrube dos regimes fascista, nazi e comunista. Este liberalismo selvagem (económico, financeiro, social, bioética, antropológico) não será excepção, porque há um bem maior que é o Ser Humano, “criado à imagem e semelhança de Deus”. A Igreja é “perita em Humanidade” (João Paulo II).

A Quaresma como tempo de conversão:

O período quaresmal que vivemos é o “tempo favorável” à conversão do coração, ao olhar (de Jesus Cristo) e vivências mais fraternas e denunciador quando é necessário. Saibamos ser dignos filhos de Deus e contribuir para uma justa distribuição da riqueza, uma boa gestão do “Destino Universal dos Bens” e trabalharmos afincadamente para o “Bem Comum”.
Acreditemos que não estamos condenados ao que nos querem impor e fazer crer como inevitável, muito menos que “não é o momento oportuno para falarmos do assunto”. Numa democracia sólida e madura é sempre tempo e há sempre espaço para os debates da Cidadania.
Sonhemos e trabalhemos para um mundo melhor, mais habitável e respirável.
Sejamos capazes, no nosso quotidiano, de sermos portadores de Esperança e Alegria para um mundo novo: com mais fraternidade e justiça social para não sermos esmagados por estruturas iníquas.

Para terminar, fica a II Leitura deste Domingo, para que nos dê força interior:

8É que outrora éreis trevas, mas agora sois luz, no Senhor. Procedei como filhos da luz - 9pois o fruto da luz está em toda a espécie de bondade, justiça e verdade - 10procurando discernir o que é agradável ao Senhor.  11E não tomeis parte nas obras infrutíferas das trevas; pelo contrário, denunciai-as.  12Porque o que por eles é feito às escondidas, até dizê-lo é vergonhoso.  13Mas tudo isso, se denunciado, é posto às claras pela luz;  14 pois tudo o que é posto às claras é luz. Por isso se diz:
«Desperta, tu que dormes,
Levanta-te de entre os mortos,
e Cristo brilhará sobre ti».


Sérgio Almeida
Leigo cristão católico e cidadão


Mui Nobre, Leal e Invicta Cidade do Porto,
30 de Março de 2014, quarto Domingo da Quaresma, também chamado de Domingo "Laetare" ("da Alegria")


quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

1.º Encontro Nacional de Leigos


Realizou-se no passado dia 16 de novembro, em Coimbra, o I EncontroNacional dos Leigos (doravante designado Encontro), organizado pela Conferência Nacional de Associações de Apostolado dos Leigos (CNAL).


Segundo dados, gentilmente cedidos pela organização, participaram umas 400 pessoas, próximo da lotação do Auditório doConservatório de Música de Coimbra – local do Encontro-, embora as inscrições tenham chegado às 320. Entre Movimento e Associações, estavam presentes entre 35 e 40, além de muitas presenças individuais sem inserção naqueles.
Podemos verificar a diversidade de idades, equilíbrio entre homens e mulheres e diferentes proveniências geográficas e sociais. Foi uma Igreja verdadeiramente Universal (=Católica) que ali esteve presente.
O tema do Encontro era sobre a “Cultura do Encontro na Igreja e no Mundo Contemporâneo”.
Sustentava este tema uma frase do Papa Francisco: Precisamos de edificar, criar, construir uma cultura do encontro.
A estrutura, os subtemas, os grupos de trabalho e os participantes poderão ser consultados na nesta hiperligação (folheto do Encontro).
Constatamos um frenesim, uma muita boa disposição das pessoas, aguardando com expectativa este Encontro. Quem esteve presente acabou por fazer história, dado ser o 1.º Encontro do género. Ainda para mais com a frase desafiante supracitada do Papa Francisco, que serviu de mote ao Encontro.
A intervenção inaugural ficou a cargo de Alexandra Viana Lopes, Presidente do Conselho Nacionalda CNAL.. Destacamos das suas palavras, as referências à Gaudium et Spes, com relevo para a fidelidade ao Evangelho e à promoção da Justiça Social, o fundamento em Jesus Cristo, a necessidade de mais amor e mais bondade. Sustentou as suas afirmações, com citações de Simone Weil (na forma como falam das coisas terrenas é que vejo é que vejo como é a relação dom Deus) e de JoséMattoso, extraídas da sua intervenção (“Sabedoria e Fraternidade”), em junho de 2011, nas jornadas da Pastoral da Cultura: temos alguma coisa a dizer ao mundo.


Seguidamente houve um momento de cultura – de início, não previsto no programa -, com a atuação do Coro de D. Pedro de Cristosediado na cidade anfitriã. Foram interpretadas quatro obras.

Encontro eclesial para o reencontro do mundo

D.Manuel Clemente, Patriarca de Lisboa e Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), versou sobre o tema em destaque. Salientou que o encontro é uma “indubitável necessidade humana” e que “o outro é contraste e desafio”. Lamentou-se por a “realidade portuguesa ser mais um desencontro do que um encontro (família, política, sociedade)”.
Não escondendo a sua “costela” de historiador, D. Manuel deu-nos uma abordagem do encontro ao longo dos tempos históricos. Recordou as comunidades cristãs primitivas, onde estas nasciam da relação/encontro com Deus, Jesus Cristo e o Espírito. O encontro de Jesus com o Homem foi a sua Encarnação. Segundo este responsável da CEP, a “cultura vigente é de anti-encontro”. Não deixou de frisar o papel da Ação Católica em Portugal, a qual, nos anos setenta era fonte agregadora e, portanto, de encontro de centenas de milhares de portugueses.
As realidades sociológicas alteraram-se muito nas últimas décadas e “o encontro passou a ser casual e hipotético”.
Quanto ao papel dos leigos, o Patriarca lembrou a ChristfidelesLaici (“sobre a vocação e missão dos leigos na Igreja e no Mundo”), Exortação Apostólica
Pós-Sinodal de João Paulo II, onde assumem um papel de relevo e importância.
D. Manuel referiu algo que é de salientar e que, talvez resuma, um grande problema pastoral com o qual a Igreja em Portugal (leigos e clero) se vai debater: “a recomposição da comunidade cristã”. Vivemos num “mundo mais urbanizado e sem rosto”, por isso necessitamos  “de um empenhamento missionário cristão”.
Somos do entender que a intervenção de D. Manuel Clemente foi tão esclarecedora e tocante nos pontos essenciais que merecem grande atenção de todos que se envolvem em/na Igreja, que não podemos deixar de elencar estes pontos/critérios de discernimento e de eclesialidade:
  1. O mais primário é a vocação à santidade: qualquer pessoa, qualquer movimento.
  2. Eclesialidade dos movimentos: confessar a fé católica para dialogar, dizer o que nos move e ouvir.
  3. Testemunho de comunhão sólida e convicta entre os leigos / movimentos.
  4. Conformidade e cooperação na finalidade Apostólica da Igreja (“Corpo Vivo”).
  5. Empenho na presença na sociedade humana (Doutrina Social da Igreja – DSI – e dignidade da pessoa humana): urgência atual.
Como um bom exemplo relativamente ao ponto 4, referiu o Apostolado da Oração que, desde o século XIX, “tem um frutuoso trabalho de apostolado, de oração e de encontro com Cristo”.
Sobre a DSI, ou Pensamento Social Cristão, focou 4 critérios fundamentais:
  1. Dignidade da Pessoa Humana (“Jesus Cristo detêm-se junto de cada homem e mulher”).
  2. Bem Comum (“desenvolvimento integral de cada um dos membros da sociedade”).
  3. Subsidiariedade (“ninguém substitui ninguém; cada um faz a sua parte”).
  4. Solidariedade (“pensar nos outros, não ficar em mim”). 
A finalizar, deixou um desafio:
- “Encontros assumidos a partir de diversas conexões pessoais e de grupos para Servir o Evangelho e a Igreja”.
E lembrou um autor do século II:
- “Quando os outros nos (cristãos) ouvem falar no amor aos inimigos ficam admirados, mas quando veem irmãos a odiarem-se ficam espantados”.


 De seguida, teve lugar um debate entre um grupo de leigos e o próprio D. Manuel Clemente. Abordaram-se diversas questões, entre elas: “Que passos os movimentos podem dar para o contributo de uma Igreja/Comunhão?” e “Como a Igreja se pode preparar quem tem andanças e num contexto de fé?” e “espiritualidade e profundidade”.

No final deste debate e antecedendo o tema seguinte, deu-se o segundo momento cultural do Encontro, com a atriz DanielaVieitas (ex-voluntária dos Leigos para oDesenvolvimento) a dramatizar o conto “Estamos juntos”, do P. Nuno Tovarde Lemos, S. J.

Encontro como Experiência de Missão


Este painel juntou leigos e voluntários de 3 projetos distintos: “Missão País”; “Juntos pela Europa” e “Plataformas pela Vida”.
Os representantes de cada projeto, em alguns minutos, explicaram os objetivos e as ações de cada um.
O “MissãoPaís” visa “levar Deus à Universidade”, sendo um projeto de e para universitários. Divide-se em missão interna, externa e pessoal. Os jovens voluntários são oriundos de vários centros universitários, detendo diferentes espiritualidades: Companhia de Jesus, Equipa de Jovens de Nossa Senhora, Franciscanos, Opus Dei, Verbum Dei, entre outros.
Como o nome indica espalham a fé pelo país, quer nas Universidades onde estudam, quer juntos dos que mais sofrem, com uma enorme Paixão por Jesus Cristo, sem qualquer distinção de condição social, ideológica ou religiosa.
Por seu turno, o “Juntos pela Europa” pretende a união fraterna pela Europa, através da reconciliação entre católicos e evangélicos e da renovação espiritual e social do continente. São cerca de 250 movimentos de diferentes confissões cristãs. Destes, 13 estão sedeados em Portugal.
Há 7 sins a unir esta plataforma:
  1. À vida
  2. À família
  3. À criação
  4. A uma economia justa
  5. À solidariedade
  6. À paz
  7. À responsabilidade para com a sociedade
O “Manifesto 2012” do “Juntos pela Europa” foi elaborado no sentido da “necessidade de uma Europa mais unida” (os cristãos em particular), de um “sim à economia justa, de rosto humano e próxima das pessoas”.
Por último, o movimento “Plataformas pela Vida”, como o nome indica, está unido em defesa da vida (ponto comum entre cristãos). A oração é uma das suas “armas”, através do sítio http://www.oracaopelavida.org/.
Após o 1.º referendo sobre o aborto, em 1998, surgiu a necessidade de criar movimentos, sempre na crença do poder da oração.
Uma das associações, a Associação deapoio à vida (ADAV), presta apoio às mães, apoio jurídico, apoio social e psicológico. Entretanto, elaboraram um Manualde bioética para jovens.
Ainda no âmbito das “Plataformas pela Vida”, interveio a Federação Portuguesa pela Vida, relatando a sua experiência a vários níveis: intervenção política; movimentação civil dos cristãos; participação de crentes e não crentes com posições comuns sobre esta matéria; geração de experiência de Igreja; beleza da unidade com os Evangélicos e a dificuldade em mobilizar o povo, mesmo o cristão.

Encontro como resposta às necessidades mais urgentes

Da parte da tarde, o Encontro dividiu-se por 6 grupos de trabalho (GT), com as seguintes temáticas:
  1. A defesa e a promoção da vida.
  2. A promoção da dignidade do matrimónio e da família.
  3. A conveniente promoção do progresso cultural.
  4. O desenvolvimento económico-social.
  5. A participação na comunidade política.
  6. A promoção da paz e a comunidade internacional.
O Fé eCidadania esteve presente no GT 5 (A participação na comunidade política), sob a coordenação de Filipe Anacoreta Correia e RaquelAbecassis.
Foram convidados para participar no debate AntónioMaria Pinheiro Torres, advogado, filiado no Partido Social Democrata (PSD) e ex-deputado por este partido, na legislatura anterior, e Pedro Pimenta Braz, filiado no Partido Socialista, ex-autarca e, atualmente, Inspetor-geral da Autoridade para as Condições de Trabalho.
Antes do início do debate entre estes dois políticos assumida e vivencialmente católicos, deram o seu testemunho: Armando Lopes do MovimentoFocolares, José Augusto Gomes Paixão coordenador da Liga Operária Católica/Movimento deTrabalhadores Cristãos (LOC-MTC) e Pedro Morais Vaz do Movimento Schoenstatt e militante da Juventude Popular (JP).
Armando Lopes falou sobre a necessidade de, em 1.º lugar, estar a fraternidade e, em 2.º lugar, a “luta política”, referindo-se ao Movimento PolíticoPela Unidade (MPPU) dos Focolares, o qual representa “uma nova forma” de fazer política. A fraternidade está na base das suas vidas . O MPPU nasceu em Itália, no entanto, atualmente, está presente em Espanha, na Alemanha, na República Checa, no Brasil, na Eslováquia, na Argentina e na Coreia. Este Movimento detém escolas de formação política em alguns destes países.
Há três princípios que subsistem no MPPU (“mas foi Jesus Cristo que os inventou”):
  • “Amar o partido alheio como o próximo”;
  • “Fazer-se um com o outro”;
  • “Ouvir o adversário com atenção e sem preconceito”.
José Augusto Gomes Paixão abordou as suas origens e o seu passado em meio rural, onde viveu e sentiu na pele, com a família, a exploração de uns quantos sobre uma maioria, a sua pertença a diferentes movimentos da Igreja, em particular os ligados ao meio rural e ao movimento operário.
Referiu que a LOC-MTC é um movimento especializado da AçãoCatólica, por isso seguem o ver, julgar, agir. O essencial da sua atuação é o “respeito pela pessoa humana e sua dignidade”, tendo elementos em Sindicatos, Cooperativas, Comissão de Trabalhadores, Comissão de Utentes, entre outros.
Para o coordenador da LOC-MTC, militantes e trabalhadores cristãos, todos são importantes. Mencionou a motivação do Papa Francisco pelos mais pobres: “Não deixemos que nos roubem a esperança”, Carta Encíclica Luz da Fé, n.º 57.
Pedro Morais Vaz, começou a sua intervenção afirmando: “Faz-me impressão que os católicos não tenham nada a fazer”. Para ele, a Pessoa humana é o “fundamento e o fim”. A sua escolha partidária, após reflexão, acabou por recair no Centro DemocráticoSocial (CDS). Neste partido pertence à Juventude Popular, onde já contribuiu com diferentes trabalhos.
Entrando na fase do debate, Raquel Abecassis, proferiu algumas afirmações, ao jeito de constatações:
  • “Não somos tão poucos assim (católicos empenhados na política);
  • “Nós estamos em todas as áreas da política”;
  • “A política é determinante para todos nós”.
A primeira questão do debate foi :
- “Católicos devem ou não participar na política?”:
Pedro Pimenta Braz, sem dúvidas, contra questiona: “Como podia ser cristão/católico e passar ao lado da realidade política?”.
Para o socialista, a política é equivalente a cidadania.
 “É um paradoxo um cristão não se interessar na política”; “cristão tem que ter imensa Graça, imensa liberdade interior (aumenta a sua assertividade)” para servir e entrar na política. “Os nossos políticos são o espelho que nós somos (toda a sociedade, cristãos incluídos)” foram algumas das suas afirmações como resposta à questão colocada. Terminou-a, deixando uma outra questão: “o que é que Deus quer de mim?”. Respondeu: “esfolar os joelhos e levantar-me outra vez.
António Maria Pinheiro Torres, encontra mais moralismo naqueles que não pertencem à Igreja. Entende que políticos cristãos são “mais livres porque vivem num horizonte de perdão”.
Para si, “o mais impressionante que encontra na política partidária é o medo de perder. Aí um cristão é mais livre”, porque tem a pertença a uma comunidade. Sugere a necessidade de intervir por causa do Estado esmagar instituições.
Mais duas questões foram levantadas pelos moderadores:
- “Como na vossa vida dá-se o fazer-se sim?” e
- “Como se entendem os católicos na política?”:
Pedro Pimenta Braz, entende serem muito positivas a pontes com outros católicos de outras fronteiras, mas “nem sempre consigo ver no outro o meu irmão”, afirmou.
“Capacidade de discernimento com outras ideologias, desde que respeitadoras da Doutrina Social da Igreja. A todo o momento e caso a caso.”
“Não temos que ter um selo na testa a dizer que somos católicos, mas, quando nos confrontam, nós não nos podemos esconder”.
Com estas duas declarações rematou a sua resposta às duas questões.
António Maria Pinheiro Torres disse que achava bem as “bem aventuranças”, mas quando chegou ao Parlamento foi um choque”. Teve que votar propostas com as quais não concordava para que não se avançasse com o referendo sobre o aborto, no âmbito do acordo PSD/PP.
Quanto a entendimentos entre católicos na política, declarou que criou uma grande amizade com DeolindaMachado (Assembleia Municipal de Lisboa, CGTP, LOC-MTC). Existe um olhar de desdém dos “grandes” sobre os cristãos, referiu.
Ambos os políticos católicos concordaram que os “linchamentos internos” nos partidos são frequentes.

Depois das questões lançadas por Raquel Abecassis e por Filipe Anacoreta Correia, foi dado ao público a oportunidade de fazer umas perguntas/partilhas:
  • “Bem comum” foi um termo banido da política. É necessário denunciar o liberalismo que cria um maior fosso entre ricos e pobres”;
  • “Dar as Graças a Deus quem está na política. Nós erramos, por isso políticos são nosso espelho”;
  • “Crise com base política. Hipótese de outras formas de governação, sem ser com base partidária”.
Os intervenientes no debate concluíram:
António Maria Pinheiro Torres:
“Não deixem políticos sozinhos”.
Pedro Pimenta Braz:
“Não podemos queixar-nos da situação política, pois existe uma crise de participação cívica.”

Encontro como resposta às necessidades mais urgentes
Conclusões:



  1. A defesa e a promoção da vida:
Área de formação:
- Necessidade de formação a jovens, pais e avós, acentuando valores e conceitos.
- O porquê de defender a vida e quais as características dessa atuação.
- Replicar o Manualde bioética para jovens de uma forma mais simples.
Dimensão social:
- “Não conseguimos estar quietos com tanto sofrimento à volta”.
- Necessidade de rede para se comunicar.
- Desconhecimento das associações existentes.

  1. A promoção da dignidade do matrimónio e da família:
- Respostas aos desafios no cartaz.
- Um dom para todos ficarem a conhecer, partilharem.

  1. A conveniente promoção do progresso cultural:
- “O que falaram dava para um Congresso, com base na Gaudium et Spes”.
- Falaram de experiências concretas.
- Contentes por se conhecerem.
- Dimensão da Fé e esplendor da Beleza.

  1. O desenvolvimento económico-social:
- Partilhas emocionadas.
- “Empresário tem missão de representar Jesus Cristo na empresa”.
- “Trabalho justo e digno é que promove progresso”.
- “Igreja pode ser vista dentro de uma empresa, como uma igreja laboral”.
- “Precisamos da CNAL, dos Operários, dos Empresários, dos Investigadores por causa da questão do desemprego”.

  1. A participação na comunidade política:
- Deficit de participação política a vários níveis (depende presente e futuro).
- Não há um só caminho legítimo na política, conforme DSI.
- Necessidade de maior mobilização.
- Necessidade de formação em diferentes áreas para uma participação política mais consistente.
- Necessidade dos políticos serem acompanhados (católicos precisam de apoio).

  1. A promoção da paz e a comunidade internacional:
- Conhecimento de projetos concretos.
- Não perder horizonte global.
- Necessidade de cidadania global.
- Desigualdades sociais.
- Trabalhar em Comunidade e combater individualismo.
- Visão global, mas com pés assentes na terra. Lidamos com pessoas concretas.
- Necessidade de liderança servidora.
- Gerir a diversidade.
- Respeito pela Criação e pelo Bem Comum.

Eucaristia:


O encerramento do Encontro deu-se através da celebração da Eucaristia, presidida pelo presidente da ComissãoEpiscopal do Laicado e Família (CELF), D.Antonino Eugénio Fernandes Dias, coadjuvado por mais dois sacerdotes.

E agora?

Foi a pergunta que nos ocorreu, após o final do Encontro, e que se mantém ao fazer o resumo daquilo “vimos, ouvimos e lemos”.
Tal como mencionamos no início deste texto, havia uma grande expetativa por ser o I Encontro, existia uma grande diversidade de participantes e os temas em discussão eram bastante transversais.
Mas foi um Encontro, uma horas juntos, fraternalmente a partilhar, a sonhar, a idealizar, a questionar. No entanto, sobram mais 364 dias até – esperamos - ao II Encontro. O que fazer durante esse longo período, mormente num contexto nacional de profunda crise económico-financeira, social e política, tendo por base uma profunda crise moral e de valores, sejam eles a que níveis forem.

Deixamos algumas constatações e questões, que pensamos serem pertinentes no âmbito do papel do Leigos na Igreja e na Sociedade:

- Há encontro na Igreja?
Neste sim, mas no restante da Igreja?

- Há encontro no Mundo contemporâneo?
Diversas participações deram fortes esperanças de uma cultura de encontro interno dentro da própria Igreja e desta com o mundo contemporâneo, em várias áreas da sociedade e do saber. Contudo, a tendência de desencontro marca profundamente a nossa sociedade (não só a portuguesa), muito baseada no individualismo, no materialismo e no indiferentismo.

- Foi mais do evidente a necessidade de leigos ativos e empenhados.

Jesus Cristo afirma “a messe é grande, mas os operários são poucos” (Mt 9,37). Diversos documentos da Igreja apelam à participação dos leigos, numa perspetiva de “direitos”, mas também de “deveres”. Ultimamente, o Papa Francisco tem sublinhado frequentemente a urgência da envolvência dos leigos na Igreja e na Sociedade. Assim estejamos à altura.

- A igreja não está morta. Existe muita diversidade de dons.

- Na crise que vivemos em Portugal, mas também na Europa, e, por reflexo, numa parte significava do Mundo, o que cada um e em comunidade pode e deve fazer?

Pensamos que, no imediato, urge socorrer os que mais sofrem como resultado da dita crise (desemprego, emprego precário e pouco respeitador da dignidade da Pessoa Humana; cuidados de saúde mais caros, atribulações no ensino; fome; problemas de auto-estima: desagregação familiar). Contudo é preciso continuar a ajudar todos os outros que já estão continuamente em sofrimento (presos, doentes, velhos, imigrantes sem papéis, sem-abrigo, quem sofre violência: doméstica, sobre as crianças e os velhos, toxicodependência, entre outros), com respostas concretas: roupas, comida, ajuda na procura de trabalho, palavras encorajadoras, ombro amigo, ajuda financeira nos casos extremos para que não se falhem os compromissos da casa, dos serviços básicos. Com certeza que requer “coração”, mas, de igual forma, “razão” para que haja discernimento, coordenação e se chegue a quem mais precisa. É essencial trabalhar em comunidade.
Depois, numa vertente mais “teórica”, e numa perspetiva de longo prazo, mas começando já, denunciar as estruturas económicas, financeiras, políticas e sociais que criaram e agravam a crise. Há que lutar pelo Bem Comum (termo tão caro na DSI e que, D. Manuel Clemente, não deixou de frisar), sem complexos de qualquer ordem. Ainda por estes dias, no rescaldo da edição da Exortação Apostólica EvangelliGaudium (A Alegria do Evangelho), alguém da nata da alta finança mundial dizia que este documento, e, consequentemente, o Papa era de cunho marxista.
Quando lutamos pela Vida (seja na criação, seja no fim dela) também nos alcunham, mas desta feita, como reacionários. Não temos, nem podemos ter medo dos rótulos que nos colocam. A DSI não segue, nem se verga a ideologias. Para si, o essencial é o Ser Humano e a sua Dignidade.
Por isso, a Igreja (no sentido de Povo de Deus) tem que lutar pela vida TODA: biológica, mas, de igual modo, social, económica, política, cultural, social.
Para além da denúncia sem medo (Jesus, comummente nos diz: “não tenhais medo”), temos que anunciar a Boa Nova de Nosso Senhor Jesus Cristo, que “traduzida” para uma linguagem atual, sem a desvirtuar, significa: Fraternidade; Justiça Social; estar junto das periferias e das margens (tema tão querido ao nosso Papa Francisco); Amor; Fé; Esperança, respeito pela Criação e pela Natureza; vidas mais despojadas para que haja o essencial para todos; Diálogo Ecuménico e Inter-religioso; Dialogo com as Artes e a Cultura e o Mundo Contemporâneo, no geral.

Como afirmou LucianoManicardi (Comunidade Monásticade Bose),  na Semana Social de 2012, que se realizou  no Porto, conferenciando sobre “Acaridade, essência do ser Igreja”:


É o momento de, na Igreja, saber declinar-se historicamente a fé como resistência, como capacidade de dizer “não” para salvar o grande “sim” não negociável ao Evangelho e ao direito dos pobres, à pessoa do pobre. O tempo da crise é por isso, um tempo de ação responsável dos crentes que sabem dar o nome às obras dos malvados e sabem também opor-lhes resistência, ou seja, com a sua ação responsável. No trecho dos Efésios, ocorre por três vezes a oposição “não... mas” (Ef. 5,16.17.18) que indica a oposição do cristão à mundanidade, aos modos da mundanidade, porquanto estes possam parecer vencedores. É preciso um esforço de discernimento para se deixar guiar por aquilo que é agradável ao Senhor, pelo Evangelho. É preciso vigiar, estar atentos, lúcidos, críticos. Os dias maus são a ocasião para viver o Kairós, o momento presente, e vivê-lo manifestando a diferença cristã.

Por fim, os agradecimentos à CNAL a cedência dos dados referentes à participação no Encontro e a autorização para publicar as fotografias e os vídeos que o Fé e Cidadania teve oportunidade de tirar e gravar, respetivamente. Nestas hiperligações encontrarão outras fotos e as gravações que não carregados no blogue.